Projeto nacional convoca voluntários antirracistas para candidaturas negras nas Eleições 2020

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Enegrecer a Política, que reúne organizações de quatro estados de três regiões brasileiras, pretende fortalecer ocupação de cargos públicos eletivos por pessoas negras. Grupo também levanta dados de candidaturas e eleições negras de 2016, mapeia candidaturas negras para 2020 e mobiliza campanhas educativas sobre o tema

Mapear perfil e dificuldades estruturais enfrentadas por pessoas negras para acessar cargos públicos eletivos no Brasil, e gerar instrumentos de apoio e mudanças estruturais nesse cenário. Esses são os principais objetivos do Enegrecer a Política, projeto nacional composto por organizações dos estados da BA, PA, PE e RJ, que abriu inscrições de voluntários e voluntárias para apoiar candidaturas negras comprometidas com direitos humanos nas Eleições 2020. O formulário pode ser acessado por meio do link ou no site do projeto: enegrecerapolitica.org. Qualquer pessoa do país pode participar!

 

O formulário, lançado na última semana, permite que profissionais de comunicação, finanças, área jurídica, contabilidade e outros possam disponibilizar recursos humanos para fortalecer candidaturas negras de todo o Brasil para as próximas eleições. O principal objetivo é criar uma rede que conecte apoiadores e voluntários a candidaturas negras, no sentido de possibilitar uma campanha mais justa e engajada, num cenário em que apenas 8% das candidaturas se autorreferenciam como negras (TSE, Eleições 2018). Racismo estrutural dentro dos próprios partidos, menos recursos financeiros e humanos disponíveis, e o próprio racismo social são apenas alguns dos entraves para que uma candidatura negra se firme e finalmente consiga se, aumentando a representatividade política das pessoas negras, mais da metade da população brasileira.

 

Nossa ideia não é fortalecer candidatura A ou B, mas criar estratégias que possibilitem um maior número de pessoas negras participando dos espaços públicos eletivos, atualmente sub-representado. Isso vai além das campanhas em si, passa por como os partidos políticos priorizam ou não essas candidaturas, acesso a financiamento, condições materiais, dificuldades em ser uma mulher negra e candidata, entre outros. São fatores que queremos mapear para influenciar positivamente nesse cenário e ter mais negros e negras na política”, defende Ingrid Farias, membro do Observatório Feminista do Nordeste e da Rede de Feministas Antiproibicionistas/Renfa, e uma das coordenadoras do projeto.

 

Mapeamento de Candidaturas Negras 2020

Outra ação em curso do projeto é , que conta com mais de 200 inscrições de todo o Brasil até agora. As perguntas abordam o perfil de candidatos e candidatas, condições das candidaturas (apoio, força nos partidos, financiamento, etc), anseios e propostas trazidas, desde candidatos de comunidades quilombolas rurais até periferias das grandes metrópoles. A ideia é coletar dados pré- eleições que possam contribuir para compreensão do cenário, além da evolução desses dados no pós-eleições. O formulário do mapeamento pode ser acessado no link ou no site www.enegrecerapolitica.org.

 

Além disso, os grupos têm coletado dados sobre candidaturas negras e suas eleições no ano de 2016 junto a fontes como o TSE, ano em que ocorreu o primeiro pleito municipal com registro pelo sistema eleitoral de dados sobre cor/raça de candidatos e candidatas – a primeira vez em que isso aconteceu foi nas Eleições 2014. A pesquisa empreendida pelo projeto servirá de comparativo às Eleições 2020, além de trazer subsídios para ações do projeto em prol do voto em pessoas negras comprometidas com direitos humanos.

 

Brasil tem baixa representatividade de pessoas negras na política

Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), responsável pela divulgação das candidaturas registradas no Brasil, apenas 8,65% (42.524) dos candidatos nas Eleições de 2016 se declararam negros. Os dados sobre cor ou raça só passaram a ser declarados pelos candidatos a partir das Eleições de 2014, conforme a Resolução nº 23.405/2014 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

 

Por outro lado, na atual legislatura federal, homens brancos representam 62,57% (321 eleitos), e mulheres brancas, 12,28% (63 eleitas). Em relação a homens negros, essa porcentagem chega a 22,02% (113 eleitos), enquanto as mulheres negras compõem apenas 2,5% (13 eleitas), de acordo com dados divulgados pela FGV. Ou seja, menos de 25% da legislatura federal é composta de pessoas negras.

 

O que é o Enegrecer a Política?

O projeto visa fortalecer nacionalmente a participação e a representatividade política das pessoas negras no contexto brasileiro, em especial em regiões nas regiões Norte e Nordeste, em que esse cenário é ainda mais crítico. Nosso foco é que mais pessoas negras possam ter possibilidades efetivas de não apenas encampar candidaturas, mas também de se eleger aumentar a representatividade negra nos espaços de disputa política institucionais.

 

O projeto é uma iniciativa de sete organizações de quatro estados de três regiões brasileiras: Bigu Comunicativismo (PE), Blogueiras Negras (PE), Coletivo de Mulheres Negras Maria-Maria (PA), Fórum Marielles (BA), Mulheres Negras Decidem (RJ), Rede Nacional Feminista Antiproibicionista – Pernambuco (PE) e Observatório Feminista do Nordeste (NE).

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